O Ateliê BoniFrati e a Aceitação

Aceitar é entender e compreender a realidade, os fatos, e por mais que doa, é a partir dela que a transformação e a mudança, geralmente para melhor, nascem.

Para quem não sabe, eu já fui dono de uma empresa, que por acaso a vida me presenteou com esta grande oportunidade de chefiar um quadro de funcionários.
Dias atrás, um comentário muito gentil me lembrou desta história, o ateliê de bonecos BoniFrati, a qual entrei como um mero designer gráfico, e por fim, me tornei o dono de tudo.
A história não é breve, pois foram anos de dedicação, e os aprendizados foram infinitos. Hoje falei sobre como foi difícil aceitar o seu fim, ou pelo menos o ciclo em que eu cuidava de tudo.

Inicialmente, trabalhava com Karin, uma pessoa mágica e que se tornou uma grande amiga. Ela me ensinou que eu podia escolher ser o que quiser, ela me incentivou de diferentes formas – como designer, me tornei fotógrafo, artesão. Fotografa os bonecos e contava histórias no Blog, com a ajuda de uma roteirista, a Juliana, que se tornou amiga também.
Fazia layouts, brincadeiras, e os moldes – onde explorei bastante as ferramentas do design.

E um belo dia a empresa iria chegar ao fim, declarando falência pública.
Eu não queria aceitar que aquele mundo mágico e colorido que eu havia me encontrado chegaria ao fim, e relutei. Me ofereci para assumir tudo. E assumi.
Foi quando me vi a primeira vez como empreendedor.
Me mudei para Itu, interior de São Paulo, com o dinheiro da rescisão, que era pouco mais de 3mil reais, e reiniciei tudo, principalmente os aprendizados adultos administrativos.
Em um final de semana, com minha mãe Maria e irmã Vilma, organizamos a casa onde estava tudo. Tinha assumido alugueis e tudo mais, sem saber o que viria.
Na semana seguinte, me vi fazendo entrevistas, com pouco mais de 24 anos, e funcionários novos mais velhos. Minha exigência era uma, até um pouco preconceituosa na época: só contratava mulheres, pois sabia que minha relação com elas seria melhor.

Assumi os riscos e aceitei que precisava evoluir. Dormi embaixo da mesa do escritório por meses em um pequeno colchonete azul, acordava cedo, ensinava o serviço para todas sem nem saber direito. E como havia previsto, a relação foi ótima. Eram 3 funcionárias fixas, e uma em São Paulo para as vendas às lojas de presentes.
Me dividi em mil, para continuar com minha antiga função, e aprendendo a ser administrador.
A coisa funcionou. E um pelo dia fomos expulsos da casa. Precisei fechar tudo e recomeçar em São Paulo. Foi a primeira vez que me vi não aceitando a situação, mas aceitando os fatos por fim. Demissão em massa e até um processo judicial ganhei. E não queria aceitar tudo isso, como assim acabar dessa forma?

Recomecei, e aceitei que tudo dependia de mim.
Aluguei uma nova casa, refiz a equipe, recontratei pessoas maravilhosas que me seguiram por alguns anos.
A vida seguiu linda e colorida. E a equipe aumentou, o espaço ganhou forma, até a BandNews me convidar para entrevistas e a Minha Casa, revista de decoração, fazer matérias fotográficas sobre o ateliê.

Aceitei meu sucesso, que não era possível sozinho. Cuidava sempre das “minhas meninas”, como chamava minha equipe de funcionárias, como minha família – que de alguma forma eram mesmo.
Enfrentei o medo do desconhecido, empreendi de forma humana, e respeitava e dava dignidade. Era uma sensação maravilhosa.

Até que um dia aceitei que não sabia o que seriam os próximos dias, ainda na entrevista da BandNews. Me perguntaram como seria o meu futuro e naquele instante, enquanto respondia o que eles queriam ouvir, coisas como “aumentar o quadro, ter loja própria”, eu internamente não sabia, pois percebi que estava distante do meu ideal de vida.

Eu não fazia mais o que gostava – as histórias e as fotografias. Eu havia me transformado num administrador de empresas, com várias doenças que me deixavam mal. Gastrite, úlcera, enxaquecas, e o peso da responsabilidade de ser a cabeça de um negócio que financiava vidas – as das funcionárias.
Então aceitei que não podia mais levar isso a frente, e ao mesmo tempo, aceitei o fim do meu casamento de 7 anos – que vou guardar para outro vídeo o partilhar.
Doeu. Levei tempo para aceitar. Só que diante disso eu tinha fatos – a crise financeira começava no Brasil e eu assisti diversos clientes donos de lojas fechando suas portas.

Então tomei uma das decisões mais difíceis da vida: aceitar que tinha encerrado.
Demiti todos, cumpri com minhas obrigações judiciais e fiquei sem nada. Apenas com o meu carro amarelo – aquele do último vídeo.
Aceitei o inevitável. E sofri. Para assim renascer.

No fim, a última funcionaria, que era mais amiga do que tudo, Sibéria, fiz um gesto de carinho para a dor dela de deixar a empresa não ser tão grande. Ensinei tudo o que sabia e lhe dei de presente toda a estrutura, com panos e sonhos, e bonecos.
Ela ficou feliz, e eu fiquei mais ainda. Um dia a vida me presenteou com a oportunidade de ser feliz entre as cores, e eu aceitei que podia fazer igual. E fiz.

Hoje conversamos sobre, ela segue no seu próprio ritmo e eu fico feliz em saber que tudo correu bem.
Aceitei que a vida queria me ter em outros planos, que até hoje tento compreender e aceitar.

E mais uma vez a Antroposofia me ensinou a magia do aceitar, e deixar fluir. Aceitar não é viver na ilusão ou sofrer, é sim encarar os fatos, a realidade, e entender que ela é assim, vezes dura, vezes leve, e que o mais importante é compreendermos que tudo depende do que fazemos com isso. Aceitar é libertador, pois deixamos o apego de lado e abrimos espaço para o novo, para as possibilidades.

Por fim, ganhei a oportunidade de recomeçar, me tratar, me cuidar. Melhorei minha saúde e meu estilo de vida, e voltei a trabalhar com o que gostava – o design. E a escrita me preenche com as histórias, que hoje não são mais dos bonecos, mas sim as minhas próprias histórias de vida, que hoje tento partilhar aqui com você.
Sai vitorioso com tudo. Mas, ainda mais com a minha liberdade que é tão importante, e muitos sorrisos, como era a meta da BoniFrati. Sorrir e colorir.
E que seja assim, em tudo na vida.

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Veja a matéria na BandNews:

 

Créditos de fotos: Thiago Vicente
Edição e manipulação de imagens: Thiago Vicente

Referências de pesquisa de texto: BandNews, Sociedade Antroposófica