Minha criança interna e o Recomeço

“Minha busca pela essência das coisas é nada mais que a busca pelo mudar a mim mesmo”

Depois de meu processo biográfico antroposófico longo e profundo, já partilhado anteriormente aqui nos vídeos, eu comecei a compreender que temos o poder de ter em nossas próprias mãos as escolhas da vida.

Aprendi que com a razão se explica tudo, as não a essência. E por esta busca pela essência segui fundo em um processo interno de resgate e cura da minha criança interior, mesmo sem saber a razão de minha principal e maior dor.
Tudo fez sentido, confesso.
Quanto mais me aproximava desse ponto – onde tudo começou, onde o maior trauma se instalou – mais eu compreendia que a vida me trouxe para o momento agora, e me preparou para tudo.

Ainda não é fácil falar sobre, mas me sinto fortalecido para dividir uma parte, inspirado em uma grande pessoa que me apoia e me motiva diariamente: minha mãe. Ela é um exemplo de bondade e força, em todos os sentidos.

Na Antroposofia, dividimos os períodos de 7 em 7 anos, chamados de setênios. E é no primeiro em que tudo é programado para a vida toda, pois quando crianças, aprendemos por imitação.

E foi neste período que algo aconteceu comigo, e que felizmente minha mente apagou. Até alguns momentos e meses atrás, onde recordei: um abuso sexual, partindo de uma pessoa de minha família.
Não preciso entrar em detalhes, pois o que importa aqui é o processo de cura da criança interior em que eu entrei, meio sem saber a alguns anos, desde minha separação.

Fui caminhando ao longo da vida, e percebendo uma série de padrões de abusos, desde relacionamentos tóxicos, a maus tratos e ataques gratuitos por onde andava, principalmente na família. E sem entender, continuava a caminhar, a buscar ajuda e autoconhecimento.
Até que, recentemente, durante uma discussão, onde eu no calor do momento, era ofendido e ouvia palavras duras de alguém que admirava e aprendi a amar, a lembrança veio em seguida. E com ela um desconforto e uma raiva tremendos. Tremi, chorei e cai. Me senti com nojo. Me odeie e me perguntei “por que isso estava acontecendo”.

Foi quando uma forte crise depressiva veio, e fui parar no hospital, sedado para me acalmar.
Daquele momento em diante, entendia dia após dia que eu era mais uma vítima da falta de amor, mas que ainda sim, preferia seguir o caminho do amor.

Tudo fez sentido, toda a minha vida veio em mente, e eu pude finalmente compreender a razão de tudo, e que nada mudaria ao saber disso. Sou agradecido por este doloroso momento, que com muita força interna e de minha mãe, familiares e amigos, fui entendendo que precisava perdoar. Mas perdoar a pessoa que mais se feriu nesse processo todo: eu mesmo, ou  melhor, a minha criança interna.

E não é fácil, pois foram anos de maus tratos internos, de modo inconsciente. Até que percebi que podia mudar, que podia procurar ajuda, que podia recomeçar e fazer diferente. E tenho feito. E o mais importante e que tem me trazido força para esse processo: partilhar aqui com você, para que você possa perceber que também é capaz.
Não aconselho sair contando para todo mundo, mas sim para pessoas de confiança, e preferencialmente médicos e psicólogos.

Eu escolhi fazer o que melhor se podia fazer com isso tudo – aceitar que tudo aconteceu. Doeu, chorei, cai, sofri mais. Mas esse sofrimento só é permitido para os fortes, para os vulneráveis, para os que acreditam que podem se transformar.
E me transformei em mim mesmo, na minha melhor versão, melhorada a cada dia.

Hoje, ao sentar para escrever o que iria falar neste vídeo, me senti aflito, mas liberto enfim. Dessa dor, dessa carga pesada, e livre para recomeçar e sentir, seja como for.

Meus sonhos se tornaram mais fortes, minha vida, meu eu, meus fazeres, por que no fim eu escolhi o mais importante: me aceitar, me encarar de corpo e alma, e me amar com todas as imperfeições.
Ainda tenho um longo caminho pela frente, eu sei, e curando as feridas aos poucos, e se possível, ajudando o próximo nisso.

Mas meu objetivo aqui é dizer para você que somos capazes de tudo, basta acreditarmos em nós mesmos.
Passando pelos outros setênios, agora mais confiante e consciente, percebo que aos poucos vou chegando ao meu atual, o dos 28 aos 35 anos, onde é a fase de organização geral. E que lembra até uma fase crística, dos 33 anos, que inclusive é minha idade.

O tempo é o melhor remédio para curar as feridas. Mas o amor, para com nós e com nossa criança interna, que deve ser protegida e aceita, é igualmente importante.

Estamos juntos nessa jornada.

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Teoria dos setênios e a vida humana dividida de 7 em 7 anos:

 

Créditos de fotos: O terceiro AtoThiago Vicente
Edição e manipulação de imagens: Thiago Vicente

Referências de pesquisa de texto: Eu sem fronteiras, C1D, SBC