Meu cão Harley e o Medo

Podemos entender o medo como o sentimento de insegurança em relação a uma pessoa, uma situação ou um objeto. Medo é pessoal, o que assusta um pode ser indiferente do outro.

Antes de adotar o Yuri para minha vida (ou como costumo dizer, ele me adotar para a vida dele), eu tinha um outro cão resgatado. Seu nome era Harley, e ele também era um chowchow, só que caramelo.
Ao contrário do Yuri, ele era bastante temperamental e agressivo. Na época eu ainda era casado, quando ele com pouco mais de 6 meses entrou na minha vida.
Foi engraçado pois eu não o escolhi, foi sim meu companheiro, Rodnei – meu ex casamento. Não nego para ninguém que já fui casado com um homem, mesmo me reconhecendo hoje como de gênero neutro, onde amo as pessoas e não suas sexualidades – papo para outro vídeo.

Harley parecia dócil e eu sempre tentava conquistá-lo, mas quase sempre em vão. Entendi que ele gostava de estar no seu espaço sozinho e que tinha um temperamento bastante difícil. Engraçado pensar que ele se parecia muito com o meu ex-companheiro.
Ao longo dos anos, sua agressividade foi aumentando. Lembro-me que um belo dia, antes de sair de casa, fui dar um biscoito e ele abanou o rabo. Ao me virar, ele me atacou o braço e foi alí que entendi o que era o medo. Fiquei assustado e corri, pedindo ajuda aos vizinhos, que prontamente me levaram para o pronto socorro.
E ele ficou lá, abanando o rabo.

Naquele instante entendi que o medo é algo bom, pois ativou meu instinto de sobrevivência.
Meses se passaram e eu  entendi que precisava fazer algo para diminuir a agressividade do cão e o meu medo que aumentava, conforme o amor por ele seguia o mesmo caminho.
Infelizmente não tive muito apoio familiar, pois não queriam treiná-lo ou adestra-lo, e então depois de muita discussão decidimos adotar outro cão do mesmo porte para baixar sua guarda.

Foi aí que a vida me presenteou com ele, Yuri. E mal sabia ele que no fim, quem me salvaria de todas as futuras histórias seria ele, esse felpudo especial.
Logo que chegou, o medo aumentou com a agressividade de Harley. Ele não gostou nada da companhia dócil e meiga que Yuri era.
Tentativas, estudos, e eu ia aprendendo a dominar o cão e o meu medo.
Até que um dia o segundo ataque – ao tentar por uma focinheira, ele pegou minha mão.

Neste instante, não aceitei que seria assim, e tentei vencer a barreira do medo novamente e da incerteza. Bati o pé no treinamento, em vão, pois o meu ex-companheiro não queria pagar a conta.
E a vida seguiu com medo mesmo.

Até que uma fatalidade aconteceu: em um passeio sozinho, me arrisquei levar os cães para passear, com aquela pressa típica paulistana de querer fazer tudo ao mesmo tempo.
E foi aí que ele surtou, no meio da rua, e me atacou pela terceira vez. Yuri saiu de perto, e Harley me feriu gravemente. Lembro-me claramente do medo que senti da morte, pois ele mordeu meus braços, enquanto eu gritava desesperado em frente a diversas pessoas na rua, e sempre que soltava alguma parte de meu corpo, agarrava outra, como braço, costas.

Neste instante desisti de viver, e percebi que minha vida estava uma calamidade, principalmente meu relacionamento e a forma como estava conduzindo minha vida.
Em um instante de lucidez, deitado no chão e vendo os olhos raivosos do Harley, senti muito medo, e quando achei que não poderia sentir mais nada, uma força incrível me fez levantar. Sangrava, muito ferido, e olhei a cena: Ele pendurado no meu braço, minhas pernas a sangrar e eu dando um grito que ecoava a toda rua.

Fui salvo por mim mesmo, que mesmo com medo, me reergui.Harley soltou-me e eu cai no chão. Me levaram para o hospital e eu ria desesperado.
Rasgaram minhas roupas para ver o estrago, as pessoas comentava coisas do tipo “foi acidente de carro?”, e eu ria, de nervoso, frustrado com aquilo. Como podia algo que eu amava tanto me ferir assim.
Enquanto me costuravam, um total aproximado de 24 pontos pelo corpo, sentia dor, e sentia medo.

Entendi que podia superar o medo, mas que antes precisava senti-lo em sua intensidade.
Ao sair, conversava com as pessoas e mostrava a foto dele e me questionava em lágrimas o por quê daquela situação.
Aos poucos o medo foi se transformando em força, em aceitação também, e principalmente em coragem.
Levei tempo e entendi que aquilo não estava certo. Um cão, o amor que eu dava e até mesmo a relação e a minha vida.

Por fim entendi que aquele medo me fez enxergar tudo o que eu não queria mais, como uma morte em vida. Morri e renasci, em uma trágica história, que hoje agradeço ter vivido pois, sem essa sensação, jamais poderia testar minha coragem e minha força interior.
As marcas ficaram, claro, e as ressignifico até hoje, com tatuagens principalmente – outro assunto para outro vídeo; mas o mais importante é entendermos que o medo faz parte, e que para superá-lo precisamos vivenciá-lo, e ter coragem de encarar.
Não digo assumir um risco desse tamanho, mas sim, entender que ele faz parte e que apenas quer nos proteger.

O medo não é sinal de fraqueza ou covardia. Muito pelo contrário: é uma reação involuntária e natural com a qual o ser humano convive ao longo de vários momentos de sua vida, e que nos mostra por fim o quanto corajosos somos de, em nossa vunerabilidade, aceitar que ele existe.

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Créditos de fotos: Débora IslasThiago Vicente
Edição e manipulação de imagens: Thiago Vicente

Referências de pesquisa de texto: Vittude, Marisa Psicologa